quarta-feira, janeiro 17, 2007

Globalização e humanidade

“Gostaria de lhes contar que, em Cabul, pegávamos um galho de árvore e usávamos como se fosse cartão de crédito. Hassan e eu levávamos aquele galhinho até a padaria. O padeiro fazia marcas na vareta com uma faca, e cada uma correspondia a um naan que ele tirava para nós das chamas do tandoor. No fim do mês, meu pai lhe pagava pela quantidade de marcas na vareta. Era só isso. Sem perguntas. Sem documento de identidade.” (em “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hossein).

O mundo globalizado é cheio de maravilhas e assombro tecnológico. Esta semana, a notícia do momento foi o novo aparelho celular da Apple, o iPhone, que é muito mais que um telefone celular - tira fotos, toca música, acessa a internet – tudo sem nenhuma tecla, a não ser a “on/off”.

Mas eu tenho saudade do tempo em que a gente usava a “caderneta” pra marcar as compras feitas na padaria, no açougue, na quitanda, todos de pessoas a quem chamávamos pelo nome e que nos tratavam pelo nome também. Não chegava a ser uma vareta de árvore, mas era quase isso.

O mundo encheu-se de maravilhas, mas perdeu parte de sua simplicidade encantadora. Um pouco da sua humanidade...

3 comentários:

Chris disse...

Olá Rubens,
estou numa campanha aqui em casa para ganhar O caçador de Pipas de presente de níver e ach que já faturei.
Mas pelo que eu lembro, naquelas cadernetas não havia os juros abusivos cobrados pelos cartões do inferno.
Tô de volta, mas a mente inda está de férias, acho que tomando água de coco ou nadando lá em Arraial...rs...
Abraços
Chris

Lou Mello disse...

Cara como você tá velho. Caderneta? Uau! Não tinha juros, mas como era dificil o seu Manuel acertar aquela conta. Ele sempre errava para mais, mas tudo bem, meu pai sabia e fingia não saber. Dizia: É só um jurinho.

FALANDO E ENCANTANDO disse...

Simples e direto, seu texto reflete bem uma época que, provavelmente, não volta mais. No poema "Vou-me embora pro passado" Jessier Quirino diz bem sobre os bons momentos de tempos idos. Me preocupa profundamente o processo de desumanização que causa a globalização. O que poderia ser voltado para a construção de um pensamento sem fronteiras é apenas utilizado para a manipulação financeira que beneficia a poucos.
Fabiano Pinheiro Graduando em História - UNICAP - Recife - PE